PRONTUÁRiO
EXÍLIOS
Iniciada
uma carreira de sucesso pelo cinema americano, com A
Testemunha (1985),
o realizador australiano Peter Weir voltou a convocar Harrison Ford
para A
Costa de Mosquito (1986),
logrando resgatar o sortilégio de uma experiência excepcional e
libertária. Em causa, um cidadão do Massachussetts, que tudo
abandona - o prestígio universitário, e o próprio país - para
enfrentar uma distinta existência: longe da rotina e dos vícios da
era tecnológica, internando-se com a mulher e os filhos na selva
profunda da América Central. Fértil engenho, audácia e tenacidade,
que procura incutir aos seus, permitem-lhe enfrentar adversidades
ampliadas, inexoravelmente, por um supremo rasgo visionário… Além
do espectáculo, ou do limite da aventura, contrapõem-se o
crepúsculo de uma civilização e o risco insolidário da
sobrevivência, em que estão em causa os desafios e os valores
paradoxais de um regresso ao elã primitivo. Afinal, como referiu
Paul Theroux - autor do romanesco original, com adaptação de Paul
Schrader - em tal essência
utópica
pairam os estigmas identificadores do herói
integral,
que está na génese dos Estados Unidos: «inventivo, pioneiro e
idealista».
CALENDÁRiO
08DEZ1922-20JUL2011
- Lucian Freud: Artista plástico britânico - «Querem que a minha
pintura funcione como carne. Para mim, a pintura é a pessoa… Pinto
as pessoas que me interessam e de quem gosto, e penso nos lugares
onde-e-que conheço».
1916-21JUL2011
- Elliot Handler: Co-criador de Barbie,
co-fundador da companhia Mattel (1945) - «Adorava o design…
Era calmo, um homem amável. Por isso, gostava tanto de brinquedos -
pois eles fazem as pessoas felizes» (Sid Handler). IMAG.111-251
1923-22JUL2011
- Blanca Rosa Henrietta Stella Welter Vorhauer, aliás Linda
Christian: Actriz americana de cinema e televisão, intérprete de
Tarzan e as Sereias
(1948), conhecida por bomba
anatómica. IMAG.231
22JUL-09OUT2011
- Fundação Calouste Gulbenkian apresenta, no Centro de Arte
Moderna, Trabalhos Com Texto e
Imagem (pintura, fotografia e
vídeo) de João Penalva, sendo curadora Isabel Carlos. IMAG.23
1983-23JUL2011
- Amy Winehouse: Cantora soul
inglesa - «Ela era especial, tinha uma voz incrível, um talento
enorme, e ninguém lhe deu a mão e a protegeu» (Luís Montez).
1940-24JUL2011
- Maria Lúcia Lepecki: Ensaísta e professora universitária, de
origem brasileira - «Era a pessoa certa para se fazer a aproximação
entre as culturas brasileira e portuguesa, sem essas macacadas do
acordo ortográfico» (Vasco Graça Moura). IMAG.314
MEMÓRiA
1914-08ABR2002
- Maria Félix: Actriz mexicana - «Não me posso queixar dos homens.
Afeiçoei-me a muitos, e trataram-me fabulosamente bem. Mas, às
vezes, tive que os tratar mal, para que não me subjugassem».
09ABR1802-1804
- Elias Lönnrot: Escritor, linguista e etnógrafo finlandês, autor
de Kalevala
(1849) - «Considero que eu próprio tenho o mesmo direito que,
segundo a minha convicção, todos os cantores reservaram a si
próprios, ou seja, o direito de arranjar os poemas na forma mais
consonante ou, como um verso diz - Eu próprio em mago me tornei, e a
cantar comecei – ou seja, considero-me tão bom cantor como eles».
IMAG.192
09ABR1942-16OUT1982
- Adriano Correia de Oliveira: Cantor e músico português - «Não
era só a voz o som a oitava / que ele queria sempre mais acima / nem
sequer a palavra que nos dava / restituída ao tom de cada rima»
(Manuel Alegre - Adriano,
excerto).
14ABR1912-1994
- Robert Doisneau: Fotógrafo francês, autor de O
Beijo No Hôtel de Ville
(revista Life,
1950) - «Uma oportunidade é algo que não podemos comprar. É algo
que temos de pagar, e pagar com a nossa vida, dedicando-lhe o tempo
necessário - isto é, pagando com tempo, não desbaratando tempo,
mas consagrando-lhe tempo». IMAG.311
15ABR1452-1519
- Leonardo da Vinci: Génio italiano da Arte e da Ciência - «Todos
aqueles que se orientam pelo argumento da autoridade, não estão a
recorrer à inteligência; pelo contrário, servem-se apenas da
memória». IMAG.16-26-189-225-365
1899-16ABR1972
- Yasunari Kawabata: Prémio Nobel da Literatura em 1968 - «Passara
o tempo. Todavia, não passava ele de modo diferente para cada um,
seguindo atalhos diversos? Como um rio, o tempo para o homem às
vezes escoa-se rapidamente, às vezes segue em ritmos mais lentos.
Acontecia também nem sempre se escoar, mas permanecer ali a
estagnar-se. Se o tempo cósmico se escoa à mesma velocidade para
todos os homens, o tempo humano, este varia conforme cada um. O tempo
escoa-se de modo semelhante para todos os seres humanos, mas cada
homem move-se dentro dele de acordo com um ritmo que lhe é próprio»
(Beleza e Tristeza).
IMAG.285
VISTORiA
Foi
o ar a mãe primeira, a água o irmão maior, sendo o ferro o filho
mais novo, e o fogo o irmão do meio. O Velho Homem, criador e Deus
do universo, separou a água do ar, logo a água da terra. Mas o
ferro ainda não nascera, e, pobre coisa, não podia crescer. O Velho
Homem, Deus do céu, juntou um dedo ao outro, apertou as mãos sobre
o joelho esquerdo.
Nasceram
então três belas virgens, todas filhas da Natureza; foram as mães
do ferro, parentes do aço azulado. Subiram acima de uma grande
nuvem, com os seus peitos muito inchados, as mamas doloridas;
vertendo leite sobre a terra, deixando-o sair de seus peitos sobre a
terra, os pântanos e entre as límpidas ondas.
A
mais velha das virgens vertia um leite escuro, negro; a segunda
vertia leite branco, sendo que a menor derribava um leite vermelho.
Da virgem de leite negro surgiu o ferro, a virgem de leite branco fez
surgir o aço, e a de leite vermelho originou o ferro feio e
quebradiço.
Elias
Lönnrot
- Kalevala
(excerto)

Corria de leste para oeste, quase perpendicular à linha férrea. O sol da tarde derramava-se por ela, fazendo-a brilhar como uma faixa metálica. As árvores, com o sol por trás, pareciam quase pretas. As sombras eram frescas, os ramos largamente abertos, a folhagem densa. Sólidos edifícios de traça ocidental sucediam-se em duas filas intermináveis, uma de cada lado.
Estranhamente,
quase não havia pessoas. Era uma rua calma e deserta que se
prolongava até ao fosso do Palácio. Também os carros eléctricos,
berrantemente coloridos, eram silenciosos.
Ao
olhar para baixo pela janela do comboio apinhado de gente, Kikuji
teve a sensação de que a avenida flutuava sozinha naquela estranha
hora do dia, que fora ali largada de um qualquer país estrangeiro.
Yasunari
Kawabata
- Mil
Grous (excerto)
A
Estupidez

O
pior é que ela tem qualquer coisa de extraordinariamente natural e
convincente. Por isso, quanto alguém considera um cromo
mais artístico do que um quadro a óleo, este juízo comporta uma
parte de verdade muito mais simples de demonstrar que o génio de Van
Gogh. Da mesma forma se torna muito mais fácil e rendível ser-se um
dramaturgo muito mais poderoso do que Shakespeare, um romancista mais
igual do que Goethe; um bom lugar-comum é sempre mais humano que uma
nova descoberta. Não surge um único pensamento importante do qual a
estupidez não saiba imediatamente aproveitar-se, ela pode mover-se
em qualquer direcção e assumir todas as roupagens da verdade. A
verdade, essa só tem uma roupagem, um só caminho, por isso fica
sempre de pior partido.
Robert
Musil
-
O Homem Sem Qualidades
(excerto)
BREVIÁRiO
Presença
edita Sangue Vadio de
James Ellroy; tradução de Alberto Gomes. IMAG.152
Estevez
Seven edita em DVD, A
Costa de Mosquito / The Mosquito Coast
(1986) de Peter Weir; com Harrison Ford e Helen Mirren.
Brilliant
Classics edita em CD, Franz Peter Schubert
[1797-1828] - Winterreise /
Viagem de Inverno pelo
barítono Christian Hilz, com o pianista Eckart
Sellheim.IMAG.116-125-203-209-223-285-310-341
BIS
edita A Insustentável Leveza
do Ser de Milan Kundera.
IMAG.355-364
PARLATÓRiO
Não
me enfeito para disfarçar, como fazem muitas mulheres. Considero-me
muito natural, não cultivo qualquer espécie de imagem. Apenas
cultivo o humor.
Maria
Lúcia Lepecki (1984)
VISTORiA
José
Cardoso Pires
Olhar
atento
mão
certeira.
No
verbo sangue e tempo depurados
por
muito amar
forte
castiga.
Maria
Lúcia Lepecki
-
Os Meus Amigos
(Manuel Costa e Silva - 1983)
EXTRAORDINÁRiO
OS
HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico
A
PENA DURA EM PEITO MOLE
- 7
Sem
mais nem menos, bêbada como um cacho e teimosa como uma frieira, a
doida pôs-se aos encontrões e à estalada a toda gente indefesa que
passava. Até chegar a vez do Polícia número 207 da 2ª Divisão,
um homem prudente e razoável, sossegado no regresso a casa.
Justino
Fiuza tentou chamá-la à razão, mas Cecília desvairou:
- Eu
não costumo obedecer senão ao meu patrão, que não tenho, e havia
de ser cá um sim, senhor...
- Vá
com juízo, sua desgraçada, que sempre terá melhor cama do que uns
palmos de tábua, se a levo para o calabouço!
– Continua
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