José
de Matos-Cruz | 24 Setembro 2014 | Edição Kafre | Ano XI – Semanal –
Fundado em 2004
Um
casal de campistas introduz-se, inadvertidamente, em centro de
pesquisas militares - abandonado, há anos, após o termo da Guerra
do Vietname - mergulhando, à luz da lua, no que parece ser uma
piscina. Só demasiado tarde se apercebe do perigo: trata-se de um
reservatório de piranhas! Uma jovem, incumbida de investigar o
paradeiro dos desaparecidos, chega ao local acompanhada por um
solitário montanhista. Inspeccionam a zona, esvaziando o enorme
tanque, onde encontram os esqueletos das vítimas. Com esse gesto
irreflectido, os rios limítrofes são invadidos pelos ferozes
peixes, pondo em risco a vida de centenas de veraneantes… Ao
assumir como inevitável referência outro assassino subaquático,
que o cinema de catástrofe tomou como modelo - Tubarão
/Jaws (1975)
de Steven Spielberg - e substituindo o tamanho pela quantidade, o
ímpeto pelo furor da depredação, Piranha
(1978)
de Joe
Dante
estabelece aliás, no início, uma sarcástica homenagem.
Prosseguindo em dimensão angustiante, de inevitabilidade que alastra
através de atmosfera ora exótica, ora irracional, persiste ainda
uma denúncia sobre a intervenção crepuscular da América no
Sudoeste Asiático.
Madre,
llévame a la cama.
Madre, llévame a la cama,
que no me tengo de pie.
Ven, hijo, Dios te bendiga
y no te dejes caer.
Hesito
em acrescentar o nome, o belo, o solene nome de tristeza a este
sentimento desconhecido cuja languidez e doçura me consomem. É um
sentimento tão profundo, tão egoísta, que quase me envergonho
dele, ainda que a tristeza me tenha parecido sempre nobre. Não a
conhecia, mas sim o tédio, o arrependimento, por vezes o remorso.
Hoje, há qualquer coisa que me envolve como uma seda, enervante e
doce, e me separa dos outros. Naquele Verão, eu tinha dezassete anos
e era inteiramente feliz. Os «outros» eram o meu pai e Elsa, a sua
amante. Antes de mais nada, devo explicar esta situação, que pode
parecer falsa. Meu pai tinha quarenta anos, estava viúvo há quinze;
era um homem novo, cheio de vitalidade, de possibilidades, e quando
saí do colégio, havia dois anos, não tinha podido compreender que
ele vivesse com uma mulher. Muito menos que mudasse de mulher de seis
em seis meses! Mas em breve, a sua sedução, aquela vida nova e
fácil, as minhas próprias tendências, levaram-me a aceitá-lo. Era
um homem impulsivo, hábil nos negócios, sempre curioso e depressa
desinteressado, e que agradava às mulheres.
As
cegonhas,
trazem o adro,
duas casas, ou três, se forem brancas,
a torre onde pousavam
lentas, eu tinha então
a idade das amoras,
o sol sufocava sobre a boca,
lembras-te? ou o peso doutra boca,
doutra razão, já não sei,
corria à pedrada
os cães de que tinhas medo,
e fugia de ti para afagar
em segredo
o baiozinho que então namorava.
PRONTUÁRiO
PERIGOS

MEMÓRiA
1935-24SET2004
- Françoise
Quoirez, aliás Françoise
Sagan: Escritora francesa - «As pessoas que escrevem livros poucas
vezes são intelectuais. Os intelectuais são pessoas que falam sobre
os livros que outros escreveram». IMAG.13-63
28SET1924-1996
- Marcello Vincenzo Domenico Mastroianni, aliás Marcello
Mastroianni: Actor italiano - «Creio que todos somos um pouco como
Dom Quixote: certas ilusões são mais fortes do que a realidade».
IMAG.72-254-435
29SET1864-1936
- Miguel de Unamuno y Jugo, aliás Miguel de Unamuno: Escritor e
filósofo espanhol - «Para
cada alma há uma ideia que lhe corresponde e que é como a sua
fórmula; e andam as almas e as ideias procurando-se umas às
outras».
IMAG.112-226-382
VISTORiA
Madre,
Llévame a la Cama

Madre, llévame a la cama,
que no me tengo de pie.
Ven, hijo, Dios te bendiga
y no te dejes caer.
No
te vayas de mi lado,
cántame el cantar aquél.
Me lo cantaba mi madre;
de mocita lo olvidé,
cuando te apreté a mis pechos
contigo lo recordé.
cántame el cantar aquél.
Me lo cantaba mi madre;
de mocita lo olvidé,
cuando te apreté a mis pechos
contigo lo recordé.
¿Qué
dice el cantar, mi madre,
qué dice el cantar aquél?
No dice, hijo mío, reza,
reza palabras de miel;
reza palabras de ensueño
que nada dicen sin él.
qué dice el cantar aquél?
No dice, hijo mío, reza,
reza palabras de miel;
reza palabras de ensueño
que nada dicen sin él.
¿Estás
aquí, madre mía?
porque no te logro ver....
Estoy aquí, con tu sueño;
duerme, hijo mío, con fe.
porque no te logro ver....
Estoy aquí, con tu sueño;
duerme, hijo mío, con fe.
Miguel
de Unamuno
CALENDÁRiO
17OUT1924-23SET2013
- António Ramos Rosa: Poeta e desenhador português, distinguido com
o Prémio Nacional de Poesia (1971) - «Sem direcção, sem caminho /
escrevo esta página que não tem alma dentro. / Se conseguir chegar
à substância de um muro / acenderei a lâmpada de pedra na
montanha. / E sem apoio penetro nos interstícios fugidios / ou
enuncio as simples reiterações da terra, / as palavras que se
tornam calhaus na boca ou nos meus passos.» (O
Horizonte das Palavras/Acordes
- 1989, excerto). IMAG.235-317
Portugal
é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura,
incluindo a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura
triste. Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A
vida não tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver,
sim, mas para quê…
Miguel
de Unamuno
-
Portugal - Povo de Suicidas
(1908, excerto)

Françoise
Sagan
-
Bonjour Tristesse
(1954, excerto)
As
Cegonhas

trazem o adro,
duas casas, ou três, se forem brancas,
a torre onde pousavam
lentas, eu tinha então
a idade das amoras,
o sol sufocava sobre a boca,
lembras-te? ou o peso doutra boca,
doutra razão, já não sei,
corria à pedrada
os cães de que tinhas medo,
e fugia de ti para afagar
em segredo
o baiozinho que então namorava.
António
Ramos Rosa
-
Branco No Branco
BREVIÁRiO
Second
Sight edita em Blu-ray, Piranha
(1978) de Joe Dante; com
Bradford Dillman e Heather Menzies. IMAG.304
Universal
edita em CD, sob chancela Deutsche Grammophon, Gustav Mahler
[1860-1911] 9
por Los Angeles Philharmonic,
sob a direcção de Gustavo Dudamel. IMAG.
208-224-237-281-323-374
Dom
Quixote edita Kalevala
de Elias Lönnrot (1802-1884); tradução de Merja de Mattos-Parreira
e Ana Isabel Soares, introdução de Seppo Knuuttila, ilustrações
de Rogério Ribeiro. IMAG.192-366
Harmonia
Mundi edita em CD, Carl Maria von Weber
[1786-1826]:
Sonatas For Piano & Violin: Piano Quartet por
Isabelle Faust, Alexander Melnikov, Boris Faust e Wolfgang Emanuel
Schmidt. IMAG.85
Quetzal
edita E os Hipopótamos
Cozeram Nos Seus Tanques de
William S. Burroughs (1914-1997) & Jack Kerouac (1922-1969);
tradução de Telma Costa.
IMAG.85-126-141-212-217-247-338-362-404-469
VGM
edita em CD, sob chancela Ricercar, Love,
Revelry and the Dance In Mediaeval Music por
Millenarium.
Relógio
D’Água edita Laços de
Família de Clarice Lispector
(1920-1977). IMAG.158-301-375-399-458
ANTIQUÁRiO
JUN1935
- O Secretariado da Propaganda Nacional/SPN convida, para assistirem
às Festas de Lisboa, vários autores espanhóis, franceses e
alemães, levando-os de seguida numa excursão de visita a monumentos
e pontos pitorescos do Norte e Centro. Entre outros, Jacques
Maritain, Luigi Pirandello, Maurice Maeterlink, François Mauriac,
Jules Romain, Georges Duhamel, Miguel de Unamuno, Fernández Flores,
Gabriela Mistral e Ribeiro Couto, que publicaram artigos e
reportagens nos jornais internacionais, sendo ainda rodada a
reportagem Visita de
Escritores Estrangeiros a Portugal,
em que figura ainda António Ferro durante um passeio fluvial no
Tejo.
EXTRAORDINÁRiO
OS
HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico
CARTA
NA MÃO DOBRA O ENGUIÇO
- 6
Com
tal pretexto, insistiu Salomão, entre insultos e disparates:
- E
o que sabes tu que eu nem imagino, pois, vivendo solteiro, a manténs
debaixo da tua telha, e a comprometes, dando-lhe alcova a poucos
passos do quarto em que dormes?
A
história rocambolesca estava a modos de continuar, deslizando qual
folhetim esticado de um pasquim, naquelas temporadas em que não há
notícias que se realizem durante os próximos dias.
– Continua