José
de Matos-Cruz | 16 Maio 2013 | Edição Kafre | Ano X – Semanal –
Fundado em 2004
Algures,
no Século XX. O mais feroz e radical dos regimes políticos,
subjugado por um opressivo e kafkiano
aparelho
administrativo, uma brutal organização policial secreta, uma
sofisticada e fatídica burocracia. Contudo, para além dos
extravagantes focos de resistência clandestina, é pela evasão
onírica que Sam Lowry, um modesto funcionário, ousa reabilitar-se,
no amor e na aventura, do seu alienante círculo de influências e
servidão…Eis Brazil
- O Outro Lado do Sonho
(1985)
de Terry
Gilliam
- uma saga futurista e testemunhadora, onírica e prodigiosa,
inspirada no sucesso musical de Ary Barroso, com múltiplas sugestões
sobre a banda sonora. Também argumentista, com Tom Stoppard e
Charles McKeown, Gilliam busca as referências temáticas e
expressionistas, míticas e emulativas, no romance 1984
(1949)
de George Orwell, e no filme Metropolis
(1926)
de Fritz Lang, em prodigiosa transfiguração pela arquitectura
visual, em paralelo a uma exacerbada e cáustica vertigem satírica.
A profética denúncia da aberração totalitarista corresponde à
feroz insolência do humor negro.
PRONTUÁRiO
FUTURISMO

CALENDÁRiO
26JUL-01AGO2012
- Em Lisboa, no Cinema City Classic Alvalade, JumpCut apresenta
Mostra de Filmes de Miguel
Gonçalves Mendes; inclui
séries, curtas, médias e longas metragens. IMAG.17-123-175-189-331
14OUT1933-29JUL2012
- Santos Manuel: Actor português de teatro, cinema e televisão,
entre os fundadores da Casa da Comédia (1962) - «A primeira memória
que guardamos de Santos Manuel é a voz. Quente, espessa, serena.
Depois, um rosto dotado de uma secura algo inquietante» (Jorge
Leitão Ramos - Dicionário do
Cinema Português 1962-1988).
1925-31JUL2012
- Eugene Luther Gore Vidal: Escritor americano - «Estilo é sabermos
quem realmente somos, conhecermos bem a mensagem que pretendemos
transmitir, e não dar a mínima importância a tudo o resto».
IMAG.192-315
02AGO2012
- Columbia TriStar Warner distribui O
Cavaleiro das Trevas Renasce / The Dark Knight Rises
de Christopher Nolan; sobre Batman,
o herói em quadradinhos concebido por Bob Kane, com Christian Bale e
Anne Hathaway.
IMAG.2-8-10-32-39-45-51-62-71-72-201-208-217-227-265-292-297-379-385-388-399
VISTORiA
A
luz foi-se e, agora, nada mais resta, a não ser esperar por um novo
sol, um novo dia, nascido do mistério do tempo e do amor que o homem
tem pela luz…
Gore
Vidal
-
Juliano
(1964 - excerto)
ANUÁRiO
1563
- Durante as guerras contra os turcos, as novidades publicam-se em
Veneza por meio de Notizie
Scritte, uma folha escrita à
mão, a qual tomou depois o título de Gazzetta,
designação derivada da moeda que se pagava pela sua leitura.
1863
- Neste ano, segundo o Relatório Geral do Serviço da Repartição
de Saúde, existem em Portugal, no Reino e nas Ilhas: 262 médicos,
566 cirurgiões, 8 cirurgiões ministrantes, 2 algebristas, 771
farmacêuticos, 11 licenciados menores de saúde, 12 dentistas, 660
sangradores e 172 parteiras.
MEMÓRiA
1628-17MAI1703
- Charles Perrault: Ficcionista e poeta francês - «Vimos que os
jovens, / Principalmente as moças, / Lindas, elegantes e educadas, /
Fazem muito mal em escutar / Qualquer tipo de gente, / Assim, não
será de estranhar / Que, por isso, o lobo as devore. / Eu digo o
lobo porque todos os lobos / Não são do mesmo tipo. / Existe um que
é manhoso / Macio, sem fel, sem furor. / Fazendo-se de íntimo,
gentil e adulador, / Persegue as jovens moças / Até em suas casas e
seus aposentos. / Atenção, porém! / As que não sabem / Que esses
lobos melosos /De todos eles são os mais perigosos» (O
Capuchinho Vermelho - Moral da História).
IMAG.115-210
18MAI1773-1848
- Marquês de Maricá, aliás Mariano José Pereira da Fonseca:
Filósofo, escritor e político brasileiro - «Os ingratos pensam
minorar ou justificar a sua ingratidão, memorando com frequência os
vícios e defeitos dos seus benfeitores».
VISTORiA
O
Capuchinho Vermelho
Havia,
numa cidadezinha, uma menina que todos achavam muito bonita. A mãe
era doida por ela e a avó ainda mais. Por isso, a sua avó mandou
fazer-lhe um pequeno capuz vermelho, que ficava muito bem à menina.
Por causa dele, ela passou a ser chamada, por todos, o Capuchinho
Vermelho.
Um
dia em que a sua mãe preparara umas tortas, disse-lhe:
– Vai
ver como está a tua avó, pois soube que ela tem andado doente. Leva
uma torta e um potezinho de manteiga.
O
Capuchinho Vermelho foi visitar a sua avó, que morava noutra
cidadezinha.
Quando
atravessava o bosque, a menina encontrou o compadre Lobo, que logo
sentiu vontade de a comer. Mas não teve coragem, por causa de uns
lenhadores que estavam na floresta.
O
Lobo perguntou-lhe aonde ia. A pobrezinha, que não sabia como é
perigoso parar para escutar um Lobo, respondeu:
– Vou
ver minha avó e levar-lhe uma torta e um potezinho de manteiga,
mandados pela minha mãe.
– Ela
mora muito longe? – questionou o Lobo.
– Oh,
sim! – exclamou o Capuchinho Vermelho. – É para lá daquele
moinho que se vê ali bastante abaixo. É a primeira casa da
cidadezinha.
– Pois
bem… – disse o Lobo, – Eu também quero ir ver a tua avó. Eu
sigo por este caminho, e tu vais por aquele. Vamos ver quem chega lá
primeiro.
O
Lobo pôs-se a correr com força, pelo caminho mais curto. Enquanto a
menina ia pelo caminho mais longo, distraindo-se a comer avelãs,
correndo atrás das borboletas e fazendo ramalhetes com as florzinhas
que encontrava...
Charles
Perrault (excerto)
BREVIÁRiO
20th
Century Fox edita em Blu-ray,
Brazil - O Outro Lado do Sonho
/ Brazil (1985) de Terry
Gilliam; com Jonathan Price e Robert De Niro. IMAG.8-62-166-384
Gradiva
edita Tempo da Música, Música
do Tempo de Eduardo Lourenço.
IMAG.59-147-161-187-214-263-352
Distrijazz
edita em CD, sob chancela Resonance, Echoes
of Indiana Avenue pelo
guitarrista Wes Montgomery (1925-1968).
Relógio
D’Água edita Contos
Escolhidos de Isaac Babel
(1894-1940); tradução de Nailia Baldé.
INVENTÁRiO
A
BATALHA DOS TRÊS REIS – ESTE SONO QUE NOS SONHA
A
memória atrai-nos ao passado. No presente, confrontamos a história.
A nostalgia perverte o futuro.
O
tempo é um nexo elementar do enigma que nos compreende, a decifrar,
e dos conflitos que temos para decidir. Não há parâmetros que
definam a realidade, pois estamos envolvidos entre a existência e a
identidade, divididos entre a expectativa, as renúncias, as
vivências e a multiplicidade.
O
apelo condiciona a procura. A melancolia determina a busca, em nós e
pelo mundo.
Terras,
raízes. Mares, vagas. Ao alto. Transformamo-nos com a viagem,
tornando supérflua a inquitude quanto à perdição ou à salvação.
Eis um povo contrastado pelas fracturas, cerzido pelos expedientes,
devastado pelas perdas, colorido pelos lutos. Assistindo à nossa
ausência, desde que partimos para o reencontro com nós próprios.
Em
A Batalha dos Três Reis,
Miguel Gonçalves Mendes evoca mitos e símbolos que nos forjaram,
segue a original inevitabilidade de percorrermos utopias e quimeras,
explora o luso verbo iniciático, enfrenta os fantasmas mutantes de
nossos desvarios e martírios, que reinventa em virtuais sujeitos
actuais – cúmplices ou incompletos, solitários ou suicidários –
declinados pelas luzes e pelas trevas.
Do
Desejado algures, ao desejo fatídico.
Aquele
que não tinha pai, não tinha mãe – que pertencia à raça dos
monstros...
Sagraram
a mística e o império. Depois, sucumbiram ao ranço e ao escorbuto.
O elmo e a alma, a arma e a cruz, o fausto e o esplendor, o hausto e
a miséria.
Com
um mistério insondável. Um padrão desconexo. Como um coração
exposto.
A
partir de Lisboa a magnífica, a cidade pobre e podre, hoje a
precária sobrevivente, Miguel Gonçalves Mendes sublima o sangue de
Sebastião na sede das areias, revolve o paroxismo d’África na
vertigem espectral sobre um homem, uma mulher e outro homem, desvenda
cada um de nós oculto nos caprichos de um deserto íntimo, sobre um
exílio assumido e paradoxal.
Reunião,
ruínas. David, fotógrafo, e o alcance dos flagrantes a reportar.
Vasco e o tédio das palavras, sem nexo somadas ou sumidas em
inscrições tumulares. O suspiro de Laura, roçando na arquitectura
dos escombros.
Crises
e tensões. A morte encoberta pela vida, o novelo da paixão enevoada
pelo olhar. Visões, fusões. E corpórea, imaterial, a tela fílmica,
macilenta – qual textura deteriorada da representação, refeita
pela penumbra volátil do imaginário.
Transes,
transições. Vestígios funestos. Nunca, sempre. Ninguém, nenhures.
Sedução, perturbação. O fulgor celeste, a fúria humana. Pueril,
solene. Expiação, impunidade. Desaires, desastres. Agonia,
autofagia. Clamor, vitimação. Combater, sacrificar por uma causa
que nos condene ou nos transcenda. Ontem como hoje.
Agonia,
euforia, alegria, alegoria. Assim, somos – gente junta, dispersa,
mansa, esparsa, volúvel, brutal. Insólita, plural. Implícita,
furtiva. Obscura, reflectida. Distante, rendida. Distinta, dividida.
Latente, inexorável. Saudosa, indiferente.
Diferente.
De regresso. Somos assim. Ansiedade, exaustão. Querer, resistir,
destruir. Qual quebranto nefasto. Assombrados, iluminados. Reverter e
prolongar.
Tormentos.
Sem alvorada. Assombrados, sonâmbulos. Habitar a incógnita épica,
irradiar no crepúsculo – prodigioso, irreprimível, perene,
visionário.
Os
mesmos lugares, outras aparências. Outros desatinos, os mesmos
destinos. Através da emergência documental, Miguel Gonçalves
Mendes eiva A Batalha dos Três
Reis de um testemunho lírico
e onírico, trágico e pungente, sobre a peculiar insónia, a secular
ficcionação de Portugal.
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