PRONTUÁRiO
REPÚBLICA
Análise,
testemunho e reflexão, sobre a realidade e a vivência portuguesas,
a partir de início do Século XX, com o fim da monarquia, tendo como
vector exponencial as contingências sociais e políticas sob o
regime do Estado Novo, pelos anos cinquenta, convergem em É
de Noite Que Faço as Perguntas
- álbum em quadradinhos, editado por Saída de Emergência, com
apoio do AmadoraBd - Festival Internacional de Banda Desenhada e do
Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem/CNBDI, no âmbito das
Comemorações Nacionais do Centenário da República. David Soares
concebeu o argumento, sobre o país «mergulhado num regime
autocrático», pela premissa de um pai que «tenta recuperar o
filho, caído no seio do partido, escrevendo-lhe as memórias que
experimentou» no «tempo em que o ideal de cidadania era a
participação activa e não o recolhimento sob o jugo ditatorial».
Eis
cinco histórias intensas, virtuais, delimitando múltiplas facetas e
implicações, ilustradas por Richard Câmara (Prólogo,
Epílogo),
Jorge Coelho (É
Só Alguém Que Foi à Caça),
João Maio Pinto (Oh!
A República!),
André Coelho (Via
Polémica)
e Daniel da Silva (Rerum
Novarum).
Distintas visões e sensibilidades criativas, um coerente e aliciante
manifesto artístico…
MEMÓRiA
09MAR1833-1899
- Francisco Martins Sarmento: Escritor, fotógrafo e arqueólogo,
procedeu à exploração metódica e intensa da Citânia de Briteiros
(1875), sendo autor de Os
Argonautas, Ora
Marítima ou Lusitanos,
Lígures e Celtas.
1911-11MAR1993
- Manuel Lopes Fonseca, aliás Manuel da Fonseca: Escritor português
- «Vida: / sensualíssima mulher de carnes maravilhosas / cujos
passos são horas / cadenciadas / rítmicas / fatais. / A cada
movimento do teu corpo / dispersam asas de desejos / que me roçam a
pele / e encrespam os nervos na alucinação do “nunca mais”. /
Vou seguindo teus / passos / lutando e sofrendo / cantando e chorando
/ e ficam abertos meus braços: nunca te alcanço!» (Vida
- excerto) . IMAG.382
1818-14MAR1883
- Karl Marx: Intelectual e
revolucionário alemão - «Sem sombra de dúvida, a vontade do
capitalista consiste em encher os bolsos, o mais que possa. E o que
temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o
seu poder, os limites desse poder e o carácter desses limites»
(Carácter, Dúvida, Poder,
Vontade).
IMAG.148-177-294-361
VISTORiA
Pregão
Escolástico
Ao
fundo meditar de horas sem conto
O filho do saber põe curto ponto.
– É preciso que a flor aspire o orvalho.
Que o recreio, o folgar siga o trabalho;
Que o moço pensador, rindo fagueiro
Das mil lucubrações dum ano inteiro,
Tenha em prémio pedir de amor a palma
Às plantas da mulher, que trouxe na alma.
– Surge pois, Guimarães; o sol vem perto,
Que brilhante há-de vir ao teu desperto.
Matizados florões prende às janelas,
Cobre as feridas do chão das flores mais belas,
E à flor dos filhos teus, que te amam tanto,
De notas festivais ergue-lhe um canto:
Que amanhã, amanhã, dos Estudantes
A função brilhar vai mais do que dantes.
– Bailados vós vereis – delírios, queixas,
Juramentos de amor, ternas endeixas,
Facetas, invenções – tudo o que a mente
Na quadra juvenil sonha de ardente.
– Mas da turma civil, briosa e honesta,
Sectário do cerol que entre na festa....!?
Ai! Dele! – ninguém há que à pena o arranque
– Interino bacalhau – de ir para o tanque
Maldizer a hora aziaga da lembrança
De vir meter o pé em tão má dança.
Ai! de vós! – todos vós a quem a ciência
As portas não abriu!... Tende paciência…
Dizei como a raposa (se quiserdes):
«Boas uvas serão, mas estão verdes»;
Que da turba, civil, briosa e honesta,
Só quem loiros tiver entra na festa,
Só quem loiros tiver!... Então, formosas,
Não podeis a nenhum ser desdenhosas;
Vós, a cujos pés rica e brilhante
À coroa da função o põe o estudante…
Vê-lo-eis amanhã dívida antiga
Num pomo vos pagar com mão amiga
Mas este simboliza amor, ternuras;
O vosso, maldição, dor, penas duras.
O filho do saber põe curto ponto.
– É preciso que a flor aspire o orvalho.
Que o recreio, o folgar siga o trabalho;
Que o moço pensador, rindo fagueiro
Das mil lucubrações dum ano inteiro,
Tenha em prémio pedir de amor a palma
Às plantas da mulher, que trouxe na alma.
– Surge pois, Guimarães; o sol vem perto,
Que brilhante há-de vir ao teu desperto.
Matizados florões prende às janelas,
Cobre as feridas do chão das flores mais belas,
E à flor dos filhos teus, que te amam tanto,
De notas festivais ergue-lhe um canto:
Que amanhã, amanhã, dos Estudantes
A função brilhar vai mais do que dantes.
– Bailados vós vereis – delírios, queixas,
Juramentos de amor, ternas endeixas,
Facetas, invenções – tudo o que a mente
Na quadra juvenil sonha de ardente.
– Mas da turma civil, briosa e honesta,
Sectário do cerol que entre na festa....!?
Ai! Dele! – ninguém há que à pena o arranque
– Interino bacalhau – de ir para o tanque
Maldizer a hora aziaga da lembrança
De vir meter o pé em tão má dança.
Ai! de vós! – todos vós a quem a ciência
As portas não abriu!... Tende paciência…
Dizei como a raposa (se quiserdes):
«Boas uvas serão, mas estão verdes»;
Que da turba, civil, briosa e honesta,
Só quem loiros tiver entra na festa,
Só quem loiros tiver!... Então, formosas,
Não podeis a nenhum ser desdenhosas;
Vós, a cujos pés rica e brilhante
À coroa da função o põe o estudante…
Vê-lo-eis amanhã dívida antiga
Num pomo vos pagar com mão amiga
Mas este simboliza amor, ternuras;
O vosso, maldição, dor, penas duras.
Francisco
Martins Sarmento (1854 – excerto)
VISTORiA
A
menina está ali tão reservada,
tão
silente e pálida;
a
alma, como um anjo delicada,
está
turva e abatida...
Tão
suave, tão fiel ela era,
devotada
ao céu,
da
inocência imagem pura,
que
a Graça teceu.
Aí
chega um nobre senhor
sobre
portentoso cavalo,
nos
olhos um mar de amor
e
flechas de fogo.
Feriu-a
no peito tão fundo;
mas
ele tem de partir,
em
gritos de guerra bramando:
nada
o pode impedir.
Karl
Marx (excerto)
Noite
de Sonhos Voada

cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço
e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
– Ó meu amor, já é dia!...
Manuel
da Fonseca
-
Poemas Dispersos
BREVIÁRiO
Tinta
da China edita Quando o Diabo
Reza de Mário de Carvalho.
Harmonia
Mundi edita em CD, Il Caro
Sassone: [Georg Friedrich]
Händel
[1685-1759] In Italy pela
sobrano Lucy Crowe, com The English Concert sob a direcção de Harry
Bicket. IMAG.196-222-243-253-296-376
Esfera
do Caos edita Paisagem &
Figuras de Annabela Rita.
IMAG.19-222

Teorema
edita William Shakespeare
(1564-1616) de Giuseppe
Tomasi di Lampedusa (1896-1957). IMAG.105-189-278-295
COMENTÁRiO
Do
mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa
de si mesmo, não podemos tampouco julgar as épocas de revolução
pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar
a consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito
existente entre as forças produtivas e as relações de produção.
Karl
Marx
-
Ciência, Consciência, Força,
Vida (excerto)
NOTICIÁRiO
A
administração dos Correios franceses apoderou-se da circular que
Karl Marx dirigia aos filiados franceses na Internacional. Também
foi apreendida uma porção de fotografias comunistas escondidas em
um fardo de fazendas.
07JUL1872
- Diário de Notícias
PARLATÓRiO
Marx
era, antes de tudo, um revolucionário. A sua verdadeira missão na
vida era contribuir, de um modo ou de outro, para o derrube da
sociedade capitalista e das instituições estatais por esta
suscitadas, contribuir para a libertação do proletariado moderno,
que ele foi o primeiro a tornar consciente de sua posição e de suas
necessidades, consciente das condições de sua emancipação. A luta
era o seu elemento. E ele lutou com uma tenacidade e um sucesso com
que poucos puderam rivalizar.
Como
consequência, Marx foi o homem mais odiado e mais caluniado de seu
tempo. Governos, tanto absolutistas como republicanos, deportaram-no
de seus territórios. Burgueses, quer conservadores ou
ultra-democráticos, porfiavam entre si ao lançar difamações
contra ele. Tudo isso ele punha de lado, como se fossem teias de
aranha, não tomando conhecimento, só respondendo quando uma
necessidade extrema o compelia a tal. E morreu amado, reverenciado e
pranteado por milhões de colegas trabalhadores revolucionários –
das minas da Sibéria até a Califórnia, de todas as partes da
Europa e da América – e atrevo-me a dizer que, embora, muito
embora, possa ter tido muitos adversários, não teve nenhum inimigo
pessoal.
Friedrich
Engels (1883)
CALENDÁRiO
07MAI-29JUN2012
- No Estoril, Espaço Memória dos Exílios expõe Guerra
Colonial: Tarrafal 50 Anos Depois,
em organização da Câmara Municipal de Cascais com Sociedade
Portuguesa de Autores/SPA.
1928-15MAI2012
- Carlos Fuentes: Escritor mexicano, distinguido com o Prémio
Cervantes (1987) - «Um romance, que fosse perfeito, afastaria os
leitores».
25MAI-08JUL2012
- No Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I apresenta
Ruin’Arte,
exposição de fotografia por Gastão de Brito e Silva.
GALERiA
Francisco
Martins Sarmento
Alto,
magro, de cabelos pretos retintos, a tez morena, o passo
apressado, destacava-se em qualquer grupo, à primeira vista.
Fisiologicamente um nervoso, falando por meias palavras, rápido
e breve no discurso, como um homem que não pode desperdiçar o
tempo, às vezes custava a perceber. A sua conversação usual,
tocando aqui e ali a fugir, entrecortada de ditos alegres ou
picantes, se carecia de atracção enlevadora, transbordava de típica
graça portuguesa.
Alberto
Sampaio
Sem comentários:
Enviar um comentário