José
de Matos-Cruz | 01 Março 2012 | Edição Kafre | Ano IX – Semanal
– Fundado em 2004
PRONTUÁRiO
IMPRESSÕES
Documento
e testemunho sobre
a exposição decorrida no Centro Nacional de Banda Desenhada e
Imagem/CNBDI, entre Junho e Outubro, e no festival Amadora Bd, entre
Outubro e Novembro de 2010, A
I República na Génese da Banda Desenhada e no Olhar do Século XXI
é
um catálogo revelador, profusamente ilustrado, imprescindível para
historiadores da cultura portuguesa e especialistas da arte em
quadradinhos. Inserida no âmbito das Comemorações Nacionais do
Centenário da República, tal manifestação teve Cristina Gouveia e
Nelson Dona como comissários, sendo consultores científicos João
Castela Cravo, Osvaldo Macedo de Sousa, Paulo Cambraia e João Paulo
de Paiva Boléo. Editada com a chancela da Imprensa Nacional - Casa
da Moeda, a obra em apreço e relevância consolida um privilégio
sobre o material impresso, as publicações, sem descurar as pranchas
e as ilustrações originais. Metódica e reveladora, a análise
contextual incide sobre os jornais e a tecnologia, a caricatura
modernista e os criadores, a banda desenhada e o cinema de animação,
com abrangência virtual na Amadora e uma perspectiva contemporânea.
IMAG.304
VISTORiA
Poucos dias antes de morreres, a morte
pousou os olhos em alguém da tua idade:
aos vinte anos, tu estudavas, ele era pedreiro,
tu, nobre, rico, ele, um rapazote plebeu:
mas os mesmos dias douraram sobre vós
a velha Roma, voltando a dar-lhe a sua juventude.
Vi os seus despojos, pobre Zucchetto.
Andava de noite, bêbado, à volta dos Mercados,
e um eléctrico que vinha de San Paolo atropelou-o
e arrastou-o por uns metros de carris no meio dos plátanos:
durante umas horas ficou ali, sob o rodado:
poucas pessoas se juntaram em redor, olhando-o,
em silêncio: já era tarde, havia pouca gente.
Um dos homens que existem para que tu existas,
um velho polícia, desbocado como todos os patifes,
gritava aos que se aproximavam mais: «Larguem-lhe os colhões!»
Depois veio uma ambulância buscá-lo:
as pessoas desapareceram, só ficaram uns grupos aqui e acolá,
e, mais à frente, a dona de um cabaré,
que o conhecia, disse a um recém-chegado
que Zucchetto tinha ficado debaixo de um eléctrico, que estava morto.
Poucos dias depois, morrias tu: Zucchetto era um
dos do teu grande rebanho romano e humano,
um pobre bêbado, sem família nem leito,
que andava de noite, vivendo ao deus-dará.
Tu ignoravas: como ignoravas
outros milhares e milhares de cristos como ele.
Talvez seja cruel ao perguntar por que razão
a gente como Zucchetto é indigna do teu amor.
Há lugares infames, onde mães e filhos
vivem na poeira antiga, na lama de outras eras.
Não muito longe de onde tu viveste,
à vista da bela cúpula de San Pietro,
fica um desses lugares, o Gelsomino...
Um monte cortado ao meio por uma pedreira, e no sopé,
entre um charco e uma fieira de prédios novos,
um montão de tugúrios miseráveis, não casas mas pocilgas.
Bastava um gesto teu, uma palavra,
para esses teus filhos terem uma casa:
nunca fizeste um gesto, nunca disseste uma palavra.
Ninguém te pedia que perdoasses Marx! Uma vaga
imensa que irrompe sobre milénios de vida
te separava dele, da sua religião:
mas não se fala, na tua religião, de piedade?
Milhares de homens sob o teu pontificado,
diante dos teus olhos, viveram em estábulos e pocilgas.
Tu sabias que pecar não é fazer o mal:
não fazer o bem, isso sim, é que é pecar.
Quanto bem podias tu ter feito! E não fizeste:
não houve quem mais pecasse do que tu.
Pier
Paolo Pasolini - Poemas
(Tradução
de Maria Jorge Vilar de Figueiredo
Assírio
& Alvim - 2005)
CALENDÁRiO
1917-25MAI2011
- Leonora Carrington: Escritora, pintora e escultora de origem
inglesa, ligada ao surrealismo e ao México - «Um poema que caminha»
(Octavio Paz).
26MAI2011
- ZON Lusomundo estreia América
de João Nuno Pinto; com
Chulpan Khamatova e Fernando Luís.
O
general tirou o cachimbo da boca e, com ar de grande satisfação,
pôs-se a olhar para Agrafena Ivánovna. O próprio coronel desceu as
escadas e abraçou Agrafena Ivánovna pelo focinho. O próprio major
deu palmadinhas na perna de Agrafena Ivánovna; os outros estalaram
as línguas.
Nikolai
Gogol
-
A Caleche
(1836 - excerto)
MEMÓRiA


1809-04MAR1852
- Nikolai Gogol: «O milionário tem o privilégio de poder
contemplar a baixeza desinteressada, pura, sem segunda intenção»
(Almas Mortas -
1842). IMAG.118-219-223

05MAR1862-1924
- Peter Newell: Autor de O
Livro Inclinado (1910) -
obra-mestra da literatura infantil, pioneira dos formatos especiais,
recuperada para os leitores do Século XXI, numa co-edição
internacional em Portugal, Espanha, França, Itália, Suiça e
Brasil. IMAG.233
05MAR1922-1975
- Pier Paolo Pasolini: «Tudo leva a concluir que a linguagem do
cinema é fundamentalmente uma linguagem de poesia. Mas,
historicamente, concretamente, depois de tentativas logo suspensas na
época em que o cinema apenas começava, a tradição cinematográfica
que se formou foi a de uma linguagem de prosa» (Cinema
de Poesia
- 1965).
IMAG.57-89-135-147-228-314
06MAR1492-1540
- Joan Lluís Vives i March Ioannes Lodovicus Vives, aliás Juan Luís
Vives: «Duas são as feras que em nós produzem mais danos: uma
cruel e selvagem, a inveja; outra, mansa e doméstica, a adulação».
1854-06MAR1932
- John Philip Sousa: Compositor e maestro norte-americano, filho de
português, inventor do sousafone e autor da marcha oficial dos
Estados Unidos, The Stars and
Stripes Forever - «Foi a
música que o celebrizou. Não tanto as diversas operetas que tiveram
sucesso na Broadway - mas acima de tudo as marchas militares, que
pela qualidade e intensidade melódica e rítmica foram adoptadas
muito para além da vida militar e das fronteiras da América. Bem
antes de morrer ganhou o cognome com que ficou na História: o
Rei das Marchas» (António
Filipe & António Leal Salvado).
BREVIÁRiO

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Libri
Impressi edita O Livro do
Buraco de Peter Newell
(1862-1924). IMAG.233

EXTRAORDINÁRiO
OS
HUMANIMAIS - Folhetim Aperiódico
A
PENA DURA EM PEITO MOLE - 5
Cecília
sentiu ganas de abafar tal alarido. Ora, estava ali mesmo a jeito a
Tasca do Azarado. Toca a andar lá para dentro.
- Eh,
tenho na pança mais de um almude de vinho!
esbracejava horas depois, aos berros, proferindo outras expressões
que, se destoam na boca de um homem, saídas d’uma mulher são
opróbrio do sexo.
– Continua